Este blog chegou ao fim da sua vida !!!


Mas vai renascer com todos estes e muito mais posts em http://www.gemeo-singular.blogspot.com/, com nova imagem e novo nome.


Esperamos-vos lá!



LUTO INSONDÁVEL PRESO NUMA ESPIRAL DE AMOR SEM FIM

Veja no fundo desta página uma apresentação em 23 slides: a origem dos sentimentos que gémeos singulares relatam com mais frequência e uma descrição dessas sensações e emoções.



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12 de fevereiro de 2010

Memória corporal


Pierre-Yves Diacon autor e interprete desta peça de dança contemporânea, é gémeo sobrevivente. Aqui "fala" a sua memória corporal... alguém conhece isto???




"Saber desde sempre que tive um gémeo deu-me um chão onde firmar os pés; suavisou uma ferida profunda, mas claro, não a curou. Canalizou uma obsessão; deu forma, identidade e reconhecimento à exaltação dentro de mim; revelou-me aos meus próprios sentimentos; deu um melhor-amigo cá dentro.

No meu caso, sinto mais melancolia do que depressão e culpa, embora esses dois aspectos me façam uma visita de tempos em tempos, sob diversas formas e disfarces. Com melancolia quero dizer: uma tristeza profunda e tranquila como um oceano onde se pode nadar, mas onde podemos afundar-nos se ficarmos demasiado tristes..."

Pierre-Yves Diacon

13 de novembro de 2009

Sinead O'Connor


Depois de isto, como duvidar da memória sensorial desde a vida intra-uterina?
De onde foi Sinead buscar este imaginário para contar uma história de amor e gratidão?
Não está a sua experiência pré-natal presente na sua vida adulta?

3 de janeiro de 2009

Saudade

Uma das maiores aflições que os gémeos sobreviventes relatam é a Saudade. Quando direccionada no sentido construtivo, é ela que faz escrever poesia, compor músicas e cantá-las com emoção, pintar quadros, imaginar histórias de amores perdidos e reencontros (quantos fadistas não terão tido esta fatalidade...).
Mas a saudade também pode ter um poder imenso no sentido destrutivo, levando as pessoas à desorientação, à tristeza, à depressão, e depois aos vícios como a droga e outros.
É ela também muitas vezes a responsável por dificuldades de relacionamento, ou por terríveis mal entendidos nas relações, amorosas ou não-amorosas.
Na esperança (ou com medo) de reencontrar o irmão perdido no seu par, repete-se com ele a história que se viveu (ou não viveu) naquela fase tão recôndita mas tão decisiva da vida! Foi uma história de amor e de dor, essa é a bitola trazida para o presente.
E é tão complicada a cura desta dor, porque ela é apetecível - é lá que está a "querida metade". Para a cura ter uma chance de ser eficaz é preciso voltar lá, sentir, compreender, perdoar e depois esquecer.

A Saudade, de tão doce, faz doer o coração.
(bonecas de Paula Estorninho)

18 de setembro de 2008

Sair do buraco negro

Depois de encarada a possibilidade de ter tido um irmão gémeo vem um longo e incontornável caminho de re-conexão com o tempo em que se deu a separação no sentido de se reviverem os sentimentos da altura. É quase uma época de “regressão penosa”, que demora sempre demasiado tempo. Parece haver uma enorme inércia em sair desta fase do caminho da cura para entrar numa nova condição. Althea Hayton chama-lhe o buraco negro.

A dor que assola nomeadamente o sobrevivente de gémeos idênticos é uma dor original impressa no mais profundo do seu ser e do seu corpo, na medula dos seus ossos. Mesmo se foram apenas poucas semanas, aqueles momentos antes do desaparecimento do seu irmão (inclusivé numa morte gradual) tiveram inevitavelmente um final inesperado e abrupto: um trauma que conduz a um sentimento de abandono, de falta insondável para o resto da vida. A pessoa sente-se em maior ou menor grau enredada numa teia de tristeza que não consegue explicar. É um sofrimento auto-destrutivo que a dada altura a empurra para a depressão ou mesmo para a morte (com exemplo o psicólogo Eduardo Sá afirma que a grande maioria dos toxicodependentes são gémeos sobreviventes).

A ferida vem do início da sua existência. O seu desgosto é como uma onda que vem do fundo do seu corpo, da sua memória celular, deixando-o impotente perante todo aquele poder destrutivo.
A referência que ele tem da vida antes do trauma, quando tudo estava bem, quase não existe, e além disso: – No início eu não estava só, eu “era mais alguém…" Esta é a sensação que retém e que o persegue, mesmo sem nunca ter sabido que o seu irmão existiu.

Na realidade ele tem uma memória recôndita, ancestral, do que era ser feliz, e estar em paz. A sua dor existe porque existe esta memória de plenitude, e é exactamente esta memória que testemunha a sua capacidade de voltar a sentir-se bem. “Mesmo que o ser humano viva dentro de um forno, nem por isso será pão. Uma situação não altera a essência. A cura na verdade, é o retorno à essência.” (Lauro Trevisan)

O gémeo idêntico foi gerado a partir de um blastocisto que se subdividiu, o que origina um incontestável vínculo espiritual entre os dois.
Mas no entanto ele é hoje um ser humano autónomo de corpo e alma – por definição saudável e perfeita. A vida é possível na totalidade, mesmo sem aquele que no início o sobrevivente considerou ser a “sua outra metade”. Ele estava enganado... sentia como bebé que era... mas o seu irmão, não era a sua “outra metade”!

Althea fala da necessidade de acordar do sonho do ventre para a vida hoje. Só existimos agora, já somos adultos, o passado já não existe. “Seja inteligente: descarregue o seu fardo, pois é inútil e só conduz ao sofrimento. Deite fora o lixo. A desgraça aconteceu, mas já não existe”, afirma ainda Trevisan.
Realmente não se trata de minimizar o sofrimento, mas apenas de compreender que o sofrimento não é a pessoa: aquele foi um episódio da vida. “O lixo” aqui são a angústia, o medo, a resignação, o ressentimento ou outras emoções frias resultantes da morte do querido irmão ou irmã gémea. O sofrimento é provocado por estas emoções que o “destino” causou, e são elas que têm de ser eliminadas, não o amor - não há necessidade de negar o ímpeto interior de recordar alguém que se amou tanto, nem de deixar de trazê-lo no coração.

Quando confundido com a dor da perda, o vínculo de amor que o sobrevivente nutre pela sua saudosa companhia limita, atrofia e destrói a pessoa.

Perdoar-se a si próprio por esta confusão, e perdoar o irmão desaparecido pela sua ausência é antes de mais um passo essencial. Como diz mais uma vez Lauro Trevisan “Além de ser um gesto de boa vontade e tolerância, o perdão é principalmente uma questão de inteligência, pois o acto de não perdoar adoece a pessoa, causa stress, parte a ponte que nos liga ao outro.”

Com a humildade do perdão e uma atitude propositada de anular e esquecer a dor da perda é mais fácil ultrapassar esta estranha fase do buraco negro.

16 de junho de 2008

Ressentimento ou raiva constantes

O Sonho do Ventre é uma impressão vaga e inefável, uma memória perdida, que permanece profundamente implantada na parte mais primitiva do nosso cérebro. Não sendo exactamente um sonho, esta é a palavra mais adequada para descrever o que obviamente está além das palavras.
Os psicólogos, embriologistas e terapeutas de várias disciplinas têm vindo a debruçar-se sobre os efeitos da experiência pré-natal na mente de cada indivíduo e hoje muitos já estão convencidos que todos nós transportamos uma impressão da nossa vida antes do nascimento.

Um aspecto interessante do Sonho do Ventre do gémeo sobrevivente é a necessidade de manter vivo aquele sonho, pois é lá que se encontra o seu irmão gémeo perdido. Mas a consequência disso não é apenas solidão e abandono, o ressentimento ou a raiva são forças destrutivas que também consomem lentamente muitos sobreviventes.

O ressentimento é aquela sensação que surge na sequência de Grandes Males. Com uma sensação constante, secreta e inquieta de ressentimento a pessoa é levada a dirigir, no seu dia a dia, um montante incrível de energia para esse sentimento.
• podemos ressentir-nos de algum dano no passado ou algo de que fomos vítimas;
• podemos ressentir-nos do facto de que algo é injusto;
• podemos ressentir-nos de alguém que simplesmente não entende como nos sentimos;
• podemos ressentir-nos do mundo ser como é, cheio de dor e sofrimento.

O ressentimento é poderoso porque contém a zanga e o sofrimento - tem um cunho de auto-preservação; sente-se digno porque há que proteger os direitos de alguém; ou, sente-se absolutamente autêntico porque aquelas sensações são muito verdadeiras.

E se na realidade perdemos mesmo alguma coisa? e se houve uma luta entre a vida e a morte? E se o mais débil realmente faliu? E se a nossa vida veio à custa da vida de alguém outro? E se o que nos retém for a culpa de ter sobrevivido?

Outros passam de uma depressão profunda para uma raiva tal, que atacam tudo e todos sem se preocupar a quem prejudicam. A mensagem é clara; "quero que o mundo sinta a minha dor!"

Esta raiva vem da expressão directa da rejeição pré-natal. Não foi a mãe quem nos rejeitou, foi o irmão gémeo por desaparecer simplesmente. A resposta típica a esta sensação de rejeição e traição é entrar em colapso, desamparo e desesperança, enfurecer-se contra o outro e contra a injustiça do mundo, e/ou recusar simplesmente implicar-se na vida.

Ao nível emocional, a raiva é uma resposta desolada, solitária e apavorada ao Buraco Negro, onde lhe foi originalmente feita uma promessa de luz e amor. Aquela promessa brilhante da vinculação com o irmão gémeo (a vinculação mais próxima que existe na natureza) não foi cumprida, deixando só escuridão: - um sentido de falta, de perda e de vazio.

Esta raiva actua de modo alienado mas não é louca. Pode ser entendida. Ela é uma raiva contra a Natureza; contra Deus; contra o modo como as Coisas São. A vida é simplesmente inaceitável - não suportável - sem Outra Metade. Como Narciso, que viveu até a sua morte na contemplação arrebatada da sua imagem reflectida, ignorando amor e vida, o sobrevivente idêntico parece-se com um zumbi, só meio-vivo.

Para o sobrevivente o ressentimento ou a raiva são provavelmente o único modo de exprimir na vida aquelas suas sensações originais. Estes sentimentos parecem incontornáveis mas podemos curá-los. Apenas temos que acordar para realidade, para o calor da nossa vida depois do nascimento: que estamos rodeados do amor, de gente que deseja ser nossa amiga; que ninguém está a tentar prejudicar-nos; que a dor é nossa, não é uma dor que nos está a ser imposta.

Quanto mais tempo levarmos a perdoar, a deixar ir, e a rendermo-nos pacificamente ao modo como as coisas são, mais tempo viveremos em dor e solidão.

Você está a criar a sua dor e só você pode curá-la, simplesmente desculpando a privação que lhe coube nesta vida.

Keeping the dream alive, Constant, secret, seething resentment, The rage of the identical wombtwin survivor