Este blog chegou ao fim da sua vida !!!


Mas vai renascer com todos estes e muito mais posts em http://www.gemeo-singular.blogspot.com/, com nova imagem e novo nome.


Esperamos-vos lá!



LUTO INSONDÁVEL PRESO NUMA ESPIRAL DE AMOR SEM FIM

Veja no fundo desta página uma apresentação em 23 slides: a origem dos sentimentos que gémeos singulares relatam com mais frequência e uma descrição dessas sensações e emoções.



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22 de janeiro de 2009

Identidade

A identidade é um tema incrivelmente complexo para quem sobreviveu in-útero a perda de um gémeo. A questão põe-se constantemente: Quem sou eu? Serei eu Eu, ou serei o Outro? Serei eu dois? Seremos nós um só?
No caso dos sobreviventes que tiveram um gémeo do sexo oposto para além da indefinição de identidade surgem também as indefinições de género. Porque é que como homem sinto tanta necessidade de me exprimir através da minha energia feminina? ou, de onde me surge tanta energia masculina se sou uma mulher?

Na cultura nativo-americana original os chamados Two Sprits (Dois-Espíritos) também intitulados Twin Sprits (Espíritos-Gémeos) eram indivíduos que apresentavam indefinição de género, quer fosse a nível das características da sua personalidade, dos estilos de vida que escolhiam, da sua opção sexual, ou mesmo a nível dos órgãos genitais.

Conforme a tribo a que pertenciam eles usavam vestes próprias e segundo o que intuitivamente sentiam ser a sua missão eram curandeiros, artistas, profetas, ... Estes indivíduos eram considerados do terceiro género porque não se identificavam nem com as características definidas para os homens nem com as que eram apropriadas para as mulheres. Venerados como extraordinárias fontes de informação sobre a natureza humana, acreditava-se que eles tinham o poder de trazer à sua tribo um maior equilíbrio entre os princípios masculino e feminino.

É interessante observar que para o povo Navajo a história da Criação se desenrola em torno de lendas que incluem numerosos pares de gémeos (entre os Lakota os gémeos eram "wakan" sagrados). Numa das maiores cerimónias dos Cheyenne, a “Dança do sol” que celebra a Nova Vida, eram Two Spirits os líderes do ritual sagrado. Este hino à Nova Vida evidencia a consciência de que a Vida só é possível quando flui a partir das energias mágicas da gemelaridade, aqui entendida como o conceito da dualidade: na vida, no mundo natural, tudo existe em equilíbrio - masculino/feminino, grande/pequeno, luz/escuridão, bom/mau, céu/terra.

Com uma atitude que nutre e abarca todas as coisas dando-lhes protecção e apoio indiscriminados, e uma grande abertura nomeadamente para aceitar e apreciar a complexidade humana, a sabedoria ameríndia acolhia os Twin Spirits ou Two Spirits com reverência e alegria.

Uma ideia que me sugere esta comovente tradição: serão aqueles que perderam irmãos gémeos no útero materno literalmente a morada física de duas ou mais entidades espirituais? e também, terão estas pessoas competências muito próprias, mas pouco exploradas por uma sociedade ocidental que não recebe bem a diversidade e a diferença?

17 de novembro de 2008

Diz qualquer coisa

"Estás tenso como a armadilha de um caçador; bem disfarçado, o que é que estás a esconder? Cara de póquer, esculpida em pedra, entre amigos mas sozinho, porque te fechas?

Diz qualquer coisa, diz algo, seja o que for, já te mostrei tudo, faz-me um sinal. Diz qualquer coisa, diz algo, seja o que for; o teu silêncio é ensurdecedor; retribui-me de qualquer forma!

Toma uma droga para te pôr em liberdade. Fruto estranho de uma árvore proibida, tens que voltar em breve. Preciso de mais do que de uma droga, preciso de uma modificação de cenário, preciso de uma nova vida.

Diz qualquer coisa, diz algo, seja o que for, já te mostrei tudo, faz-me um sinal. Diz qualquer coisa, diz algo, seja o que for; o teu silêncio é ensurdecedor; retribui-me de qualquer forma!

Diz qualquer coisa, eu estou aberto a tudo, aberto a imaginar. Já engoliste tudo? retribui-me de qualquer forma!"

James

12 de novembro de 2008

"Gémeos amalgamados"

Através de um teste de ADN chegou-se à surpreendente conclusão que uma mulher inglesa não era a mãe dos seus próprios filhos, gerados de modo natural. De facto o ADN do seu sangue e o ADN do tecido dos seus ovários não coincidia; ela era uma quimera humana. Põe-se então uma questão: será a irmã gémea desta mulher, fisicamente fundida no seu corpo, a mãe dos seus próprios filhos? Podemos dizer que esta mulher inglesa é na realidade a fusão de duas pessoas, duas irmãs gémeas.
A medicina considera as pessoas constituídas por dois tipos de células geneticamente diferentes quimeras humanas. São pessoas "como nós" que no seu corpo contêm ADN provenientes de dois blastocistos diferentes que se fundiram em determinada fase do seu desenvolvimento (ver aqui artigo em inglês).

A olho nu o quimerismo é dificilmente visível, sendo apenas possível de reconhecer em pessoas que têm genitais sexualmente ambíguos (hermafroditas), ou ainda quando partes de tecido diferem geneticamente umas das outras, fenómeno também chamado de mosaicismo. Na pele este fenómeno denomina-se de linhas de Blaschko, mas pode também observar-se quando a cor dos olhos ou dos cabelos é diferente de cada lado do corpo, quando há assimetrias.

As quimeras mais frequentemente relatadas têm sido descobertas através da fenotipagem sanguínea, detectando-se algumas pessoas que possuem dois tipos de sangue diferente. Em irmãos gémeos fraternos encontram-se algumas dessas quimeras sanguíneas porque, estando as suas placentas interligadas, eles partilharam o fornecimento de sangue no útero (o que permitiu a troca de embrionic stem cells sanguíneas e a sua consequente introdução na medula óssea do gémeo receptor). No caso das quimeras sanguíneas que não têm irmãos gémeos, a medicina aceita a hipótese de se estar perante a síndrome do gémeo desaparecido.

Segundo afirma Charles E. Boklage geneticista, e especialista em gemelaridade da East Carolina University, que nos últimos 20 anos tem estudado o desenvolvimento e a estrutura genética nomeadamente de gémeos, “(a quimera humana)…embora raramente seja detectada, pode não ser rara. Possivelmente alguns de nós somos provenientes de dois embriões... Ocasionalmente, encontramos dadores de sangue que transportam dois tipos diferentes de sangue: isso poderá significar que gémeos fraternos se fundiram no ventre num só corpo. Naturalmente, não há nenhum modo de determinar a fusão de gémeos idênticos, já que os seus genes e os tipos de sangue são iguais.
Nestes casos os gémeos não desaparecem; eles ficaram amalgamados."

O quimerismo pode aparentemente considerar-se então um terceiro fenómeno de gemelaridade para além dos dois de que se tem conhecimento: gémeos monozigóticos e dizigóticos. Enquanto a divisão dos blastómeros (óvulos fecundados) dá origem a gémeos idênticos, o quimerismo dá-se pela fusão de dois blastómeros, quer sejam eles oriundos de dois óvulos fecundados diferentes, ou de um mesmo óvulo fecundado que se dividiu.

As quimeras são indivíduos duais, gémeos de si próprios.

3 de novembro de 2008

A mímica apresenta a dualidade

Uma obra do mímico francês Jérome Murat que nos inspira a olhar a realidade com outros olhos, a reconsiderar o nosso lugar neste mundo, e a rever os nossos relacionamentos com os outros. Esta fascinante performance tem tanto sucesso e tanto impacto para muitas pessoas, não só pela sua qualidade artística, mas também porque para cerca de um décimo de todos nós ela soa a qualquer coisa conhecida...

Ele conta a história de um homem estátua que é surpreendido por uma segunda cabeça igualzinha à sua, que estava dissimulada em si. Depois de ela despertar e o saudar amorosamente este homem, ele por sua vez, desperta também para a vida. Da dualidade e empatia entre eles surge a alegria, a descoberta, mas também a competição pelo protagonismo: como podem coexistir duas cabeças no mesmo corpo? Ele tenta então suprimir à força a cabeça que acaba de se revelar, mas desse acto de abuso de poder resulta um momento grandioso, como que uma intervenção superior, quase divina. Imediatamente, revogando a sua decisão, o homem rejeita então a sua própria cabeça e opta pela cabeça que tinha latente em si. Vejam:

  • Existe em mim mais alguém oculto? e quem é esse alguém?
  • Será que sou dois?
  • Estará um de nós aqui a mais?
  • Quem sou eu? serei quem eu imaginava que era?
  • Fiquei mais Eu depois de assumir quem em mim se revelou, e ganhou força, e tanta vontade de me conquistar?

A sua verdadeira cabeça, antes encoberta, assume finalmente o devido lugar, ao conquistar o lugar da cabeça que o homem julgava ser a sua (e que poderiamos atribuir ao seu irmão gémeo perdido).

24 de outubro de 2008

Testemunho de criança

Este desenho foi feito por uma menina de 6 anos - é a capa de um livrinho que ela quer escrever.
Ela é uma criança tranquila, delicada, tolerante, mas teve já alguns momentos em que sem justificação aparente rebentou num choro inconsolável a chamar pela mãe com quantas forças tinha (ao colo da mãe).

As seguintes características levam a supor ter tido uma irmã no útero materno durante a sua gestação:
- Durante a sua gravidez a mãe teve de ficar em repouso durante várias semanas devido a hemorragias no primeiro trimestre.
- O seu parto foi complicado, nasceu inconsciente, por cesariana de urgência, e durante os primeiros dias apanhou uma meningite viral.
- Desde os 3 anos que fala da sua amiga Catarina, procurou-a quando entrou para o infantário e ao fim de uns meses queixou-se à mãe em pranto que "parece que a Catarina não existe. Nunca mais chega..."
-Desde pequenina que diz que não quer crescer, quer ficar bebé para sempre, e fica muito perturbada quando lhe dizem que está tão crescida.
- Tem pavor a ganhar nos jogos infantis; chora desesperada e diz "eu não queria que os outros perdessem..."
- Gosta muito de falar de Jesus, dos anjos, e diz que conversa com a Nossa Senhora quando se sente em aflição.

Um dia, num momento em que estávamos só as duas, disse-me:
"Eu tive uma irmã gémea quando estava na barriga da mamã, como tu. Ela estava lá comigo e brincávamos as duas. Depois eu cresci muito e ela ficou pequenina, até ser só um pontinho. Eu fiquei muito triste."

Depois de contar esta sua história ela sentiu-se mal, fraca, enjoada, mas também irritada. Eu deixei que exprimisse tudo o que quis, acolhi esse mal-estar. Mais importante que isso, eu mostrei-lhe que acreditava no seu relato depois ofereci-lhe um colo e um chá, e pouco depois ela estava melhor e foi brincar.

19 de setembro de 2008

O meu testemunho

Está quase a fazer um ano que descobri que no início da minha gestação eu não estava sozinha; estava lá mais alguém comigo, que depois desapareceu. As provas da minha condição de meia-gémea têm-me acompanhado durante toda a vida de forma latente, dando-me bastantes “dores de cabeça”.
Ao tomar consciência deste acontecimento, nos primórdios da minha vida, fez-se luz no meu espírito: então "caiu a ficha", e comecei a compreender-me melhor. Com o passar dos meses, aos poucos, dou-me conta de que me vou libertando de algumas limitações que me apoquentavam desde há muito. Finalmente posso desfrutar em consciência das alegrias, igualmente latentes, que o facto de ter sido gerada a partir de uma gravidez múltipla me traz.
Este poema, que escrevi com 17 anos, descreve um dos momentos em que a sensação de ser meia-gémea se declarava explicitamente:

Tenho andado agitada
disfarçada de doente.
O Natal não curou nada
nem sequer a própria mente.

Devia trazer felicidade,
paz de espírito, tranquilidade.
Não trouxe senão perguntas,
e comida sem vontade.

Criou um buraco fundo
pedindo pr’a ser tapado
com algo que não existe
mas devia ter cá estado.

Parece aquela saudade
dos fadistas portugueses,
mas como, e de quê? ,
pergunto eu tantas vezes.

Uma saudade assim,
sem ter princípio nem fim,
sem razão nem dimensão…
Isto mesmo... só a mim!

28 de agosto de 2008

Meu Sósia e Eu

Esta manhã veio parar-me às mãos, numa livraria, o livro Meu Sósia e Eu, da editora Campo das Letras (1999). O título chamou-me a atenção: aos 92 anos o mestre Oscar Niemeyer edita um livro autobiográfico, e opta por destacar no título o binómio dos dois seres que ele sente serem ele! (em vez de usar simplesmente o seu nome, ou algum outro nome que o caracterize).

Este génio da arquitectura que no dia 15 de Dezembro de 2007 fez cem anos, desafiou a arquitetura com linhas sinuosas, extrapolou o modernismo, criou Brasília (junto com Lúcio Costa) e recentemente foi eleito o nono entre os 100 maiores génios vivos.

O livro tem por fim dar a conhecer os diversos ângulos da personalidade de Oscar Niemeyer - o Arquiteto, o Artista, o Escritor, o Criador, o Cidadão, o Amigo; as suas andanças, os seus amigos, a sua familia, as coisas que lhe interessam.

Diz Oscar Niemeyer no prefácio, explicando um pouco melhor quem é, e que tipo de relação tem com este seu sósia:

«Meu sósia vem de longe, de outros continentes, de tempos tão distantes que deles só os livros podem lembrar. Mas vem também de áreas mais próximas, vem de Maricá onde nasceram meus avós (…)
Nada tenho a me queixar deste intruso que dentro de mim existe há anos, e me cerca com seus conselhos.
Mais puro do que eu – desconhece todos os preconceitos da sociedade – ele me sugere coisas impossíveis. Mas é honesto, despensa bens materiais e é leal e generoso, o que facilita essa conversa diária que mantemos.
Gosta de beleza. A mulher o fascina e a natureza o emociona. Muita coisa nos identifica. (…)
Não é difícil levá-lo para os problemas sociais. Seu feitio fraternal facilita.
E assim vamos nós de mão dada, sonhando melhorar o mundo. (…)
Curioso, meu sósia quer ocupar-se de coisas em demasia. Desenhar, fazer esculturas e literatura. Procuro contê-lo, fazendo autocrítica, ouvindo os amigos, lendo muito.Mas ele insiste. Diz que a arquitectura deve estar ligada a todos os assuntos da cultura e lembra como afirmativas de Heidegger e Malraux me foram úteis na defesa de meus projectos. Tudo o que faço tem sua participação e com ele divido o que vocês acharem de bom ou ruim neste livro
.»

Encontrei mais esta frase sua, de uma outra ocasião: “Acho muito bom a pessoa se recolher e ficar pensando em si mesma, conversando com esse ser que tem dentro dela, que é nosso sósia, né? Eu converso com ele a vida inteira.”

O que nos ensina este mestre centenário é de uma simplicidade comovente: com imensa lucidez ele ousa aceitar, acolher e dialogar com aquela outra parte de si próprio, a quem ele chama o seu sósia interior. E mais que isso, ele apresenta-o e louva-o publicamente em diversos momentos, ao ponto de lhe dar o maior protagonismo quando edita um livro com as suas obras e eventos principais, as mais queridas, tudo o que mais o caracteriza como pessoa.

É integrando na nossa vida aquele ou aquela que sentimos ser o nosso sósia dentro de nós, dando-lhe um lugar concreto, um espaço real, acreditando na sua existência e poder, que nos podemos curar da dualidade que está entranhada no nosso ser. É validando os nossos sentimentos perante nós próprios e os outros falando deles a todo o mundo, que nos vamos libertando da dor da perda para então podermos atingir o nosso verdadeiro potencial.

24 de agosto de 2008

Mário de Sá Carneiro

Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje quando me sinto
É com saudades de mim.

...

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo.
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida,
Assim eu choro da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
uma gentil companheira
que na minha vida inteira
eu nunca vi, mas recordo.

A sua boca dourada
e o seu corpo esmaecido,
Em um hábito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
são do que nunca enlacei.
Ai como tenho saudades
dos sonhos que não sonhei!...)

...


Partida
...

Ao triunfo maior, avante pois!
O meu destino é outro - é alto e é raro.
Unicamente custa muito caro;
A tristeza de nunca sermos dois...